sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sobre Telúrios e Amerícios

Preocupado com o filho distante, o pai manda um e-mail:

"Querido, TE AMO!"

O menino responde:

"Ok, Papai!

'TE' não é o Telúrio, de número atômico 52, um semi-metal pertencente ao grupo 16 (VIA) da classificação periódica dos elementos, descoberto no ano de 1782, ou 1783, por Franz Joseph Müller von Reichenstein?

'AM' não é o Amerício, número atômico 95, massa atômica 243 u, situado no grupo dos actinídeos na tabela periódica dos elementos?

'O' não é o Oxigênio, que representa aproximadamente 20% da atmosfera terrestre, responsável por grande parte da vida orgânica?


Sim, papai, eu entendo tudo o que você quer dizer com TE AMO, e sou muito agradecido. Mas, minha prova de amanhã é sobre os laços familiares contemporâneos!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vestígios

Era altivo, embora obtuso. Vez que outra, arrogante. Gostava de olhar do alto as coisas e as pessoas. Talvez por vestígio do cargo que ocupou na antiga Belgo-Mineira. Morava na mesma rua em que baguncei na infância.

Depois que se aposentou, não lhe restaram subordinados, a não ser seu cão, seus filhos e sua mulher. Passou a sair com a aurora, tomava um café na esquina e, depois, o rumo do bar, aonde permanecia até que o dia virasse, entre copos e fumaça, cartas, xadrez e damas, fulanos e cicranos, coisas que vinham e iam, assuntos que rodopiavam.

Foi tocando a sorte sem perceber os dias. Não viu a filha trazendo ao mundo um rebento. Não notou o filho prescindir do seu dinheiro, do seu conselho e do seu exemplo. Não viu a mulher chorar e mudar de vida, pintar o cabelo, se maquilar e botar na sua cama um outro homem.

Não sentiu a pele escurecer, contrastando com os cabelos, os olhos se amarelarem, a própria carne a lhe comer e o mundo a girar sem volta.

Morreu sem deixar vestígios.
pp

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sô Ari

Numa bodega simplória plantada numa estrada poeirenta à margem do Rio Pará, encontramos o Sô Ari. Tomava um "sabão" de amigos – os poucos que ainda tinha – porque, aos 78 anos, havia tentado a morte tomando veneno de rato.

Homem alto, esguio, trazia um olhar soturno encravado entre as rugas profundas da testa e o bigode amarelado. Teria sido belo e viçoso quando lhe sorria a sorte e cortava o vasto Brasil na boléia do caminhão.

Casara-se duas vezes, somou onze filhos saudáveis, fez amigos de lida, teve casa na cidade, dinheiro bastante para passar a velhice sorrindo, à espera de uma morte serena. Mas a vida lhe reservara curvas ainda mais sinuosas do que as que experimentara pelos sertões do País.

A mulher se foi noutros braços, levando-lhe também a casa. Os filhos se foram para o mundo. As carretas levaram os amigos. Tudo o que lhe restara era uma choça humilde erguida à beira do rio, galinhas que se multiplicavam e uma solidão de dar medo.

Passou o aniversário sem receber abraço. Alternavam-se os dias e as noites sem que lhe trouxessem alento. Rolavam as águas do rio, lentas e caudalosas, feito as horas que se arrastavam indefinidamente sem lhe indicarem o fim.

_ É triste, moço! Olho prum lado de noite, ninguém. Viro pro outro, ninguém. Durmo de olhos abertos ouvindo os sapos e grilos.

Vez que outra, quando a prosa guinava, Sô Ari se calava. Lançava um olhar perdido em qualquer direção, até que tombasse a fronte e permanecesse inerte, tragando a melancolia. Depois olhava em volta, dava um sorriso sem força e tentava participar.

- Eu também já ouvi “eu te amo”, mas o bicho humano é cruel! Faz com a gente o mesmo que a gente faz com as galinhas: atrai com um punhado de milho - prutititi... Prutititi - e quando a pobre se achega, agarra pelo pescoço, pisa na asa e passa a faca sem dó!

Sô Ari parece um balão que vai se inflando de dor. Uma hora qualquer estoura. Uma hora enche o rio e leva também as galinhas. Uma hora os remédios findam, a pinga derruba, a idade pesa inda mais e Sô Ari... Não sei.

Prefiro crer no sorriso e nas palavras que nos deixou, antes que tomássemos a estrada de volta à cidade:

- Se ocês gostam de galinha, acheguem lá em casa um dia, quando voltarem aqui! Farei uma especial procês!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Heróis da Resistência

Já de algum tempo, retribui-se a inteligência com o descaso, a genialidade com o isolamento e a sensibilidade com a pilhéria.

Vibrações de amor e de bondade enfrentam com bravura o ceticismo. O pensamento crítico, não raro, encontra a perseguição.

Nessa rota em que seguimos, alcançaremos o dia em que a plena convivência humana estará refém da imbecilização geral e irrestrita. Quiçá, sem expectativa de breve retorno à busca do luminoso elo entre razão e sentimento.

Aos amigos poetas e escritores Cláudio B. Carlos (CC) e Cleber Pacheco.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Quatro

Naquele dia o garoto não foi à escola. Pareceu mais útil aos seus pais que ficasse a mendigar no sinal, exibindo seus dentes podrese e olhos fundos, enquanto lhe pulsava no peito o renietente sonho de se tornar jogador de futebol.

O carro perdeu o freio às dez da manhã e desceu desembestado o tobogã da Contorno.

Seria o fim do pirralho, não fosse a brusca manobra do condutor que, à míngua de outros recursos, lançou o automóvel sobre o canteiro triangular que dividia a pista para dar acesso à Rua Antônio de Albuquerque.

Ali cessaram, a um só tempo, as desgovernadas trajetórias do veículo e dos pais do menino que, segundos antes, estendidos entre as flores roxas do canteiro, bebiam cachaça e contavam moedas, com os olhos fulgurantes.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Partilha

Quando ele se foi, um filho ficou com o relógio dourado. Outro, com o velho blusão.

Uma filha recolheu a saudade no remorso de uma discussão besta que, para a sua tristeza, não teve tempo de ser resolvida. As demais tragaram a adolescência cerceada do seu amor.

Um irmã que sempre fora distante pediu um par de óculos que, embora ultrapassados,ele teimava em usar.

Alguém que não me recordo levou o terno preto.

Muitos carregaram, ainda, um monte de outras coisas, menos as fotografias, a energia que ainda pulsa pela casa e a aliança, que ela meteu no dedo junto daquela que usava desde 1967, quando se uniram felizes numa igrejinha de Ferros.

Fariam bodas de prata no mesmo dia em que ele partiu: 25 de fevereiro de 1993.

O relógio, o blusão, o terno preto, o inconfundível par de óculos e outros objetos diversos foram consumidos pelo tempo, ou pelo desleixo.

Há dezoito anos, no entanto, que ela carrega as duas alianças, lembranças gravadas na alma e na carne, lágrimas e outros frutos que ainda brotam, vez que outra, daquele amor inatacável.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pequeno tratado sobre o grande nada & outras insignificâncias


Acaba de ser publicado o livro de poesias "Pequeno tratado sobre o grande nada & outras insignificâncias", do grupo de escritores O Bodoque, formado por Cláudio B. Carlos (CC), Cleber Pacheco e Ádlei Duarte de Carvalho.
Para saber mais, ou adquirir a obra, clique aqui.

sábado, 9 de outubro de 2010

Feito criança

Entardecia. Atravessávamos a rua de mãos dadas, mudos e absortos.
O entardecer de Belo Horizonte tem essa magia, esse dom de emudecer.
Ela decidiu quebrar o silêncio com seu delicioso sotaque paulistano:
- Não sei o porquê, mas todas as vezes que atravesso essa rua, ouço essa sirene tocando!
- Cigarra!
- Ã?!
- Não é uma sirene, meu amor. É uma cigarra!
Ela riu, feito criança.
Entardecia, mas parecia aurora.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Três

Marco Antônio, Adair e Pedro, meninos pobres da grande urbe, sonhavam ser, respectivamente, médico, bombeiro e bandido.
Marco Antônio tornou-se bombeiro.
Adair faz faxina em um bar, para nutrir a família e custear os estudos.
Pedro conseguiu se realizar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dois

- Vamos recomeçar?
- Como?
- Com o que temos.
- E o que temos?
- Páginas resgatadas da memória, uma vontade de ir, uma cama, energia e um pedaço de papel.
- Temos um lápis?
- Não.
- Temos amor?
- Talvez...
- Usemos o sangue. Vamos!