sexta-feira, 22 de junho de 2012

Os olhos de Dona Biju


Encontrei Dona Biju, certa ocasião, debruçando sobre A Travessia, meu primeiro romance publicado, os seus atentos olhos de 1918.


Íris e pupilas bailavam suavemente nos seus olhos – olhos ainda de menina – e se agarravam às palavras qual a criança ao seu brinquedo.

Adentrei a sala e ela, completamente absorta, entretida no livro.

Antes dos 90 anos, Dona Biju lia um livro por semana. Concedeu entrevista a um jornal, por isso. Fosse um turista tailandês que a surpreendesse ali, naquela mesma postura reflexiva, tão acometida das dores das pessoas que eu havia criado, teria dito:

_ วิธีการอ่านคนบราซิล*


(*Como lê o povo brasileiro!)

A breve estória do passarinho


09:30 h, em João Monlevade, Brasil: Corro pelos corredores a brincar com o meu irmão.
Em Tóquio, Japão: Mieko escreve um poema sobre tema sugerido pelo professor Shinji.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills deposita uma moeda na mão do florista e recebe um buquê de cravos e rosas.
No Cairo, Egito: O menino Bennu se limpa do suor colhido no trabalho.
Em Washington, EUA: Um policial repreende um bêbado que parecia dormir num gramado próximo da Casa Branca.
 x-x
11:00 h, em João Monlevade, Brasil: Conheço, por vez primeira, uma espingarda de chumbinho que alguém havia emprestado ao meu irmão.
Em Tóquio, Japão: Contendo as lágrimas, Shinji lê os versos de Mieko.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills deixa o buquê sob uma árvore da Cavendish Square e toma a condução para a sua casa.
No Cairo, Egito: Sonhando com as pipas multicores, Bennu volta ao labor no amarelo uniforme do areal.
Em Washington, EUA: O bêbado aguarda no Departamento de Polícia.
 x-x
11:30 h, em João Monlevade, Brasil: Da janela da antiga biblioteca da casa, meu irmão me lança um desafio: acertar, numa única tentativa, um pardal que acabava de pousar sobre um galho balouçante do limoeiro.
Em Tóquio, Japão: Mieko dorme profundamente, nos metafísicos braços de seu mestre.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills se entrega a profunda melancolia, agarrada ao retrato do marido, que morreu na II Guerra Mundial.
No Cairo, Egito: Fatigado e entediado, Bennu lança um olhar para a Esfinge de Gizé.
Em Washington, EUA: Ronald Reagan reúne Ministros na Casa Branca.
 x-x
11:32 h, em João Monlevade, Brasil: Descrente da probabilidade do efeito, miro o passarinho.
Em Tóquio, Japão: Mieko emite um leve gemido, depois se vira no leito.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills cobre a destra trêmula com diversas cápsulas de medicamentos.
No Cairo, Egito: Bennu recebe dois dólares para conduzir um grupo de turistas americanos. “Daria para muitas pipas”. – Sonha.
Em Washington, EUA: O alto escalão discute os rumos da economia.
 x-x
11:32:20 h, em João Monlevade, Brasil: O projétil atravessa a carne rasa e dilacera os ossos frágeis do pardal.
No resto do mundo: Tudo parou. Houve um silêncio medonho enquanto meus olhos atônitos e a sombra do limoeiro tragavam a queda lenta e dolorosa do pequenino defunto.

Horizontes que eu teria vivido,
Encantos que teria espalhado,
Canções que teria entoado,
Voos que teria empreendido...
Pereceu naquele tiro
A minha essência
De passarinho.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sobre Telúrios e Amerícios

Preocupado com o filho distante, o pai manda um e-mail:

"Querido, TE AMO!"

O menino responde:

"Ok, Papai!

Deveras, aprendi que TE é o Telúrio, de número atômico 52, um semi-metal pertencente ao grupo 16 (VIA) da classificação periódica dos elementos, descoberto no ano de 1782, ou 1783, por Franz Joseph Müller von Reichenstein.

AM não é o Amerício, número atômico 95, massa atômica 243 u, situado no grupo dos actinídeos na tabela periódica dos elementos?

'O' é o Oxigênio! Acertei? Trata-se de um elemento químico que representa aproximadamente 20% da atmosfera terrestre, responsável por grande parte da vida orgânica...

Papai, faça outra questão! Gostei da brincadeira! Em química, sou o melhor da turma!"

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vestígios

Era altivo, embora obtuso. Vez que outra, arrogante. Gostava de olhar do alto as coisas e as pessoas. Talvez por vestígio do cargo que ocupou na antiga Belgo-Mineira. Morava na mesma rua em que baguncei na infância.

Depois que se aposentou, não lhe restaram subordinados, a não ser seu cão, seus filhos e sua mulher. Passou a sair com a aurora, tomava um café na esquina e, depois, o rumo do bar, aonde permanecia até que o dia virasse, entre copos e fumaça, cartas, xadrez e damas, fulanos e cicranos, coisas que vinham e iam, assuntos que rodopiavam.

Foi tocando a sorte sem perceber os dias. Não viu a filha trazendo ao mundo um rebento. Não notou o filho prescindir do seu dinheiro, do seu conselho e do seu exemplo. Não viu a mulher chorar e mudar de vida, pintar o cabelo, se maquilar e botar na sua cama um outro homem.

Não sentiu a pele escurecer, contrastando com os cabelos, os olhos se amarelarem, a própria carne a lhe comer e o mundo a girar sem volta.

Morreu sem deixar vestígios.
pp

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sô Ari

Numa bodega simplória plantada numa estrada poeirenta à margem do Rio Pará, encontramos o Sô Ari. Levava um "sabão" de amigos – os poucos que ainda lhe restavam – porque, aos 78 anos, havia tentado a morte tomando veneno de rato.

Homem alto, esguio, trazia um olhar soturno encravado entre as rugas profundas da testa e o bigode amarelado. Teria sido belo e viçoso quando lhe sorria a sorte e cortava o vasto Brasil na boléia do caminhão.

Casara-se duas vezes, somou onze filhos saudáveis, fez amigos de lida, teve casa na cidade, dinheiro bastante para passar a velhice sorrindo, à espera de uma morte serena. Mas a vida lhe reservara curvas ainda mais sinuosas do que as que enfrentara pelos sertões do País.

A mulher se foi noutros braços, levando-lhe também a casa. Os filhos se foram para o mundo. As carretas levaram os amigos. Tudo o que lhe restara era uma choça humilde erguida à beira do rio, galinhas que se multiplicavam e uma solidão de dar medo.

Passou o aniversário sem receber abraço. Alternavam-se os dias e as noites sem que lhe trouxessem alento. Rolavam as águas do rio, lentas e caudalosas, feito as horas que se arrastavam indefinidamente sem lhe indicarem o fim.

_ É triste, moço! Olho prum lado de noite, ninguém. Viro pro outro, ninguém. Durmo de olhos abertos ouvindo os sapos e grilos.

Vez que outra, quando a prosa guinava, Sô Ari se calava. Lançava um olhar perdido em qualquer direção, até que tombasse a fronte e permanecesse inerte, tragando a melancolia. Depois olhava em volta, dava um sorriso sem força e tentava participar.

- Eu também já ouvi “eu te amo”, mas o bicho humano é cruel! Faz com a gente o mesmo que a gente faz com as galinhas: atrai com um punhado de milho - prutititi... Prutititi - e quando a pobre se achega, agarra pelo pescoço, pisa na asa e passa a faca sem dó!

Sô Ari parece um balão que vai se inflando de dor. Uma hora qualquer estoura. Uma hora enche o rio e leva também as galinhas. Uma hora os remédios findam, a pinga derruba, a idade pesa inda mais e Sô Ari... Não sei.

Prefiro crer no sorriso e nas palavras que nos deixou, antes que tomássemos a estrada de volta à cidade:

- Se ocês gostam de galinha, acheguem lá em casa um dia, quando voltarem aqui! Farei uma especial procês!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Heróis da Resistência

Já de algum tempo, retribui-se a inteligência com o descaso, a genialidade com o isolamento e a sensibilidade com a pilhéria.

Vibrações de amor e de bondade enfrentam com bravura o ceticismo. O pensamento crítico, não raro, encontra a perseguição.

Nessa rota em que seguimos, alcançaremos o dia em que a plena convivência humana estará refém da imbecilização geral e irrestrita. Quiçá, sem expectativa de breve retorno à busca do luminoso elo entre razão e sentimento.

Aos amigos poetas e escritores Cláudio B. Carlos (CC) e Cleber Pacheco.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Quatro

Naquele dia o garoto não foi à escola. Pareceu mais útil aos seus pais que ficasse a mendigar no sinal, exibindo seus dentes podres e olhos fundos, enquanto lhe pulsava no peito o renitente sonho de se tornar jogador de futebol.

O carro perdeu o freio às dez da manhã e desceu desembestado o tobogã da Contorno.

Seria o fim do pirralho, não fosse a brusca manobra do condutor que, à míngua de outros recursos, lançou o automóvel sobre o canteiro triangular que dividia a pista para dar acesso à Rua Antônio de Albuquerque.

Ali cessaram, a um só tempo, as desgovernadas trajetórias do veículo e dos pais do menino que, segundos antes, estendidos entre as flores roxas do canteiro, bebiam cachaça e contavam moedas, com os olhos fulgurantes.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Partilha

Quando ele se foi, um filho ficou com o relógio dourado. Outro, com o velho blusão.

Uma filha recolheu a saudade no remorso de uma discussão besta que, para a sua tristeza, não teve tempo de ser resolvida. As demais tragaram a adolescência cerceada do seu amor.

Uma irmã que vivia distante pediu um par de óculos que, embora ultrapassados,ele teimava em usar.

Alguém que não me recordo levou o terno preto.

Muitos carregaram, ainda, um monte de outras coisas, menos as fotografias, a energia que ainda pulsa pela casa e a aliança, que ela meteu no dedo junto daquela que usava desde 1967, quando se uniram felizes numa igrejinha de Ferros.

Fariam bodas de prata no mesmo dia em que ele partiu: 25 de fevereiro de 1993.

O relógio, o blusão, o terno preto, o inconfundível par de óculos e outros objetos diversos foram consumidos pelo tempo, ou pelo desleixo.

Há dezoito anos, no entanto, que ela carrega as duas alianças, lembranças gravadas na alma e na carne, lágrimas e outros frutos que ainda brotam, vez que outra, daquele amor inatacável.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pequeno tratado sobre o grande nada & outras insignificâncias


Acaba de ser publicado o livro de poesias "Pequeno tratado sobre o grande nada & outras insignificâncias", do grupo de escritores O Bodoque, formado por Cláudio B. Carlos (CC), Cleber Pacheco e Ádlei Duarte de Carvalho.
Para saber mais, ou adquirir a obra, clique aqui.

sábado, 9 de outubro de 2010

Feito criança

Entardecia. Atravessávamos a rua de mãos dadas, mudos e absortos.
O entardecer de Belo Horizonte tem essa magia, esse dom de emudecer.
Ela decidiu quebrar o silêncio com seu delicioso sotaque paulistano:
- Não sei o porquê, mas todas as vezes que atravesso essa rua, ouço essa sirene tocando!
- Cigarra!
- Ã?!
- Não é uma sirene, meu amor. É uma cigarra!
Ela riu, feito criança.
Entardecia, mas parecia aurora.