quarta-feira, 16 de junho de 2010

Contos do Mucuri

Imerso no breu da noite, tragando a geada de outono num ponto vago da estrada entre Nanuque e Teófilo Otoni, ouvi cantar o Mucuri.

Aos acordes dos grilos, sapos e bambuzais, ensinava-me o velho rio que, a despeito do frio, do vazio e da escuridão, é preciso vencer as pedras e prosseguir cantando, mesmo que a sua cantiga traga, nas entrelinhas, um traço de solidão.

Solidão não há em parte alguma - asseverou-me. Como saber-se só, com tantos astros solícitos a luzir no firmamento? Vê como os guardo na longa e caudalosa carne? Vivem em mim! São meus amigos!

Aprendi então que há apenas seres dormentes que jazem velados, apoiados na desilusão da espera de que, um dia, alguém por eles passe cantando, para que então despertem e com ele se alinhem, em coro, numa vasta e bela canção.

Assim contou-me naqueles breves segundos o amigo Mucuri, enquanto unia-me aos grilos, sapos e bambuzais, para que eu seguisse adiante com um risonho cântico a brotar nas entranhas do coração.

Um comentário:

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Muito bom!


Enviei novamente aquele e-mail.


CC