sábado, 7 de agosto de 2010

Terra molhada

Senti um cheiro de terra molhada, diferente da terra molhada daqui.

Foi um cheiro de tempos atrás... De um tempo que tento resgatar dentro da alma, mas que surge em fugidios lampejos e que, lentamente, vou recolhendo e tecendo a imensa colcha da história.

Parece um tempo de infância: eu e o pai, caminhando juntos, ele me dizendo das matas, dos rios, dos ventos, do fogo, das cascatas e do imenso prazer de saber que a chuva cai e que deixa, na terra boa, esse aroma único de vida promitente.

Ele dizia, enquanto caminhávamos sob a chuva, da bondade, do amor, do ódio – amor doente -, do perdão, da alegria, da tristeza, da terra molhada, do barro, das estrelas e de Deus.

Ele me mostrou Aldebarã, ensinou-me poemas e me fez admirar a mulher com uma tese fácil de me cativar, pois tinha por tema a minha mãe.

Ele se sentou ao meio-fio comigo, certo final de tarde, para me consolar da minha primeira dor de amor.

Ele me ensinou, aos oito anos, a recitar Cassimiro de Abreu que dizia, exatamente, sobre a minha idade. Depois aplicou-me outros, de Castro Alves, e outros mais, e mais outros...

Ele me fez poeta. Fez de mim um homem.

Homem no sentido bom e pleno. Homem que nasce com um órgão masculino perfeito, mas que põe no coração a sua maior força de atração e de vida.

Ele me fez gostar das matas, dos bichos e das pessoas. Ia do doutor ao lavrador para aprender como, quando e onde se deve plantar a semente.

Ele sabia muito. Não por seus vários cursos superiores, mas por amar as criaturas e por entender que sempre há o que se aprender com elas.

Ele me fez buscar as metas. Ainda que distantes e sombrias, estariam sempre ao alcance do meu trabalho.

Hoje, sentindo esse cheiro de terra molhada, lembro-me das lágrimas que derramei quando ele mudou de visível para invisível.

Lembro-me do quanto ele ama a vida, e penso no quanto ele, mesmo partindo tão cedo, participa da minha vida!

Vejo minha mãe lutando, dia-a-dia, e a mão dele, a vida dele, a resolver todas as coisas.

Uma alma do tamanho de Ademar me faz sorrir e chorar.

Lágrimas de saudade. Sorrisos por tudo o que me ensinou e que me ensina, e que me ressurge agora, nesse cheiro da terra molhada.

4 comentários:

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Belo texto.
Também trago, em minhas memórias, um cheiro de terra molhada. Dói.

Ádlei Duarte de Carvalho disse...

Oi amigo!

Pois é, eu já senti um pouco desse cheiro também nos seus livros "O Uniforme" e "Um Arado Rasgando a Carne"..

De fato, dói!

Abs.

Graça disse...

Tive o imenso prazer de conhecer o Ademar!!! A pessoa mais linda que já vi. Meu ídolo!!!! Sinto no peito saudades!!!!

Ádlei Duarte de Carvalho disse...

Graça,

obrigado pelo comentário. Ele também a admirava (e admira) muito.

Abs.