quinta-feira, 9 de junho de 2011

Quatro

Naquele dia o garoto não foi à escola. Pareceu mais útil aos seus pais que ficasse a mendigar no sinal, exibindo seus dentes podres e olhos fundos, enquanto lhe pulsava no peito o renitente sonho de se tornar jogador de futebol.

O carro perdeu o freio às dez da manhã e desceu desembestado o tobogã da Contorno.

Seria o fim do pirralho, não fosse a brusca manobra do condutor que, à míngua de outros recursos, lançou o automóvel sobre o canteiro triangular que dividia a pista para dar acesso à Rua Antônio de Albuquerque.

Ali cessaram, a um só tempo, as desgovernadas trajetórias do veículo e dos pais do menino que, segundos antes, estendidos entre as flores roxas do canteiro, bebiam cachaça e contavam moedas, com os olhos fulgurantes.