terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sô Ari

Numa bodega simplória plantada numa estrada poeirenta à margem do Rio Pará, encontramos o Sô Ari. Levava um "sabão" de amigos – os poucos que ainda lhe restavam – porque, aos 78 anos, havia tentado a morte tomando veneno de rato.

Homem alto, esguio, trazia um olhar soturno encravado entre as rugas profundas da testa e o bigode amarelado. Teria sido belo e viçoso quando lhe sorria a sorte e cortava o vasto Brasil na boléia do caminhão.

Casara-se duas vezes, somou onze filhos saudáveis, fez amigos de lida, teve casa na cidade, dinheiro bastante para passar a velhice sorrindo, à espera de uma morte serena. Mas a vida lhe reservara curvas ainda mais sinuosas do que as que enfrentara pelos sertões do País.

A mulher se foi noutros braços, levando-lhe também a casa. Os filhos se foram para o mundo. As carretas levaram os amigos. Tudo o que lhe restara era uma choça humilde erguida à beira do rio, galinhas que se multiplicavam e uma solidão de dar medo.

Passou o aniversário sem receber abraço. Alternavam-se os dias e as noites sem que lhe trouxessem alento. Rolavam as águas do rio, lentas e caudalosas, feito as horas que se arrastavam indefinidamente sem lhe indicarem o fim.

_ É triste, moço! Olho prum lado de noite, ninguém. Viro pro outro, ninguém. Durmo de olhos abertos ouvindo os sapos e grilos.

Vez que outra, quando a prosa guinava, Sô Ari se calava. Lançava um olhar perdido em qualquer direção, até que tombasse a fronte e permanecesse inerte, tragando a melancolia. Depois olhava em volta, dava um sorriso sem força e tentava participar.

- Eu também já ouvi “eu te amo”, mas o bicho humano é cruel! Faz com a gente o mesmo que a gente faz com as galinhas: atrai com um punhado de milho - prutititi... Prutititi - e quando a pobre se achega, agarra pelo pescoço, pisa na asa e passa a faca sem dó!

Sô Ari parece um balão que vai se inflando de dor. Uma hora qualquer estoura. Uma hora enche o rio e leva também as galinhas. Uma hora os remédios findam, a pinga derruba, a idade pesa inda mais e Sô Ari... Não sei.

Prefiro crer no sorriso e nas palavras que nos deixou, antes que tomássemos a estrada de volta à cidade:

- Se ocês gostam de galinha, acheguem lá em casa um dia, quando voltarem aqui! Farei uma especial procês!

Um comentário:

Lilian Santana disse...

Belo texto e ao mesmo tempo triste!