quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vestígios

Era altivo, embora obtuso. Vez que outra, arrogante. Gostava de olhar do alto as coisas e as pessoas. Talvez por vestígio do cargo que ocupou na antiga Belgo-Mineira. Morava na mesma rua em que baguncei na infância.

Depois que se aposentou, não lhe restaram subordinados, a não ser seu cão, seus filhos e sua mulher. Passou a sair com a aurora, tomava um café na esquina e, depois, o rumo do bar, aonde permanecia até que o dia virasse, entre copos e fumaça, cartas, xadrez e damas, fulanos e cicranos, coisas que vinham e iam, assuntos que rodopiavam.

Foi tocando a sorte sem perceber os dias. Não viu a filha trazendo ao mundo um rebento. Não notou o filho prescindir do seu dinheiro, do seu conselho e do seu exemplo. Não viu a mulher chorar e mudar de vida, pintar o cabelo, se maquilar e botar na sua cama um outro homem.

Não sentiu a pele escurecer, contrastando com os cabelos, os olhos se amarelarem, a própria carne a lhe comer e o mundo a girar sem volta.

Morreu sem deixar vestígios.
pp

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