sexta-feira, 22 de junho de 2012

A breve estória do passarinho


09:30 h, em João Monlevade, Brasil: Corro pelos corredores a brincar com o meu irmão.
Em Tóquio, Japão: Mieko escreve um poema sobre tema sugerido pelo professor Shinji.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills deposita uma moeda na mão do florista e recebe um buquê de cravos e rosas.
No Cairo, Egito: O menino Bennu se limpa do suor colhido no trabalho.
Em Washington, EUA: Um policial repreende um bêbado que parecia dormir num gramado próximo da Casa Branca.
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11:00 h, em João Monlevade, Brasil: Conheço, por vez primeira, uma espingarda de chumbinho que alguém havia emprestado ao meu irmão.
Em Tóquio, Japão: Contendo as lágrimas, Shinji lê os versos de Mieko.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills deixa o buquê sob uma árvore da Cavendish Square e toma a condução para a sua casa.
No Cairo, Egito: Sonhando com as pipas multicores, Bennu volta ao labor no amarelo uniforme do areal.
Em Washington, EUA: O bêbado aguarda no Departamento de Polícia.
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11:30 h, em João Monlevade, Brasil: Da janela da antiga biblioteca da casa, meu irmão me lança um desafio: acertar, numa única tentativa, um pardal que acabava de pousar sobre um galho balouçante do limoeiro.
Em Tóquio, Japão: Mieko dorme profundamente, nos metafísicos braços de seu mestre.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills se entrega a profunda melancolia, agarrada ao retrato do marido, que morreu na II Guerra Mundial.
No Cairo, Egito: Fatigado e entediado, Bennu lança um olhar para a Esfinge de Gizé.
Em Washington, EUA: Ronald Reagan reúne Ministros na Casa Branca.
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11:32 h, em João Monlevade, Brasil: Descrente da probabilidade do efeito, miro o passarinho.
Em Tóquio, Japão: Mieko emite um leve gemido, depois se vira no leito.
Em Londres, Inglaterra: A Sra. Mills cobre a destra trêmula com diversas cápsulas de medicamentos.
No Cairo, Egito: Bennu recebe dois dólares para conduzir um grupo de turistas americanos. “Daria para muitas pipas”. – Sonha.
Em Washington, EUA: O alto escalão discute os rumos da economia.
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11:32:20 h, em João Monlevade, Brasil: O projétil atravessa a carne rasa e dilacera os ossos frágeis do pardal.
No resto do mundo: Tudo parou. Houve um silêncio medonho enquanto meus olhos atônitos e a sombra do limoeiro tragavam a queda lenta e dolorosa do pequenino defunto.

Horizontes que eu teria vivido,
Encantos que teria espalhado,
Canções que teria entoado,
Voos que teria empreendido...
Pereceu naquele tiro
A minha essência
De passarinho.

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